Rascunhos do Abbel
Segue abaixo uma miscelânea de textos escritos em tempos distintos e que refletem bem a minha periódica manutenção enquanto escritor aprendiz, espécie de artista, diletante prepotente ou qualquer outra coisa que lhe me caiba julgar.
sexta-feira, fevereiro 20, 2026
0.9999
sexta-feira, setembro 13, 2024
domingo, fevereiro 12, 2023
Em tempo
quinta-feira, janeiro 20, 2022
Mal amor
quarta-feira, junho 03, 2020
Nasci poema
terça-feira, novembro 19, 2019
Não se engane
quarta-feira, julho 31, 2019
Meu motivo
Você diz o pontual.
Eu escrevo exagerado.
De manhã eu te sorrio.
Você me olha de lado.
Interpreto cada gesto,
cada movimento teu.
Crio um mundo do não dito
e você só amanheceu.
O teu tempo corre andante.
Ralentando, o meu te encontra.
Meu amor é redundante.
O teu sempre me confronta.
Sei que eu te encho a cabeça.
Me perdoa, meu amor.
Você é o meu motivo
preferido pra compor.
quarta-feira, junho 19, 2019
Um segundo
De tudo que eu faço,
te encontrar é o que eu mais gosto.
Não tem música que eu toque
ou palavra que eu escreva,
não tem canto que me sopre
ou amor que se atreva
a se comparar ao teu.
Devastastes lada a lado,
ponta a ponta, o que era raso.
Não é coisa de acaso.
Esse olhar que crava o meu
e ressignifica o dia
contempla uma vida inteira.
É rasteira.
E diz coisas tão profundas,
que só um naufragado entende.
Lá de um fundo indescobrível,
onde peixes sãos desejos
de te amar por todo o mundo
e te ver em tudo que sei.
Uma eternidade por segundo.
Um segundo e eu te amei.
quarta-feira, maio 22, 2019
Gostar dói
Gostar muito dói.
Machuca igual doce na garganta,
água gelada no dente.
Nem tente!
Segue meu conselho.
É um instante e, pronto,
cê tá tonto.
Sem fome e sem sede,
39 de febre
bem no meio do peito.
Pobre do sujeito,
suando parado,
sem rumo e sem hora.
Demora,
pra cê ver o que acontece.
Nem prece,
nem macumba,
nem ciência te revigora.
Ninguém te salva.
Fica a ressalva
de um apaixonado em crise,
a escrever seus sintomas
aos desavisados afoitos.
Espero ajudar.
Me ajude a esperar.
quinta-feira, março 14, 2019
Mal me quer
Vou escrever um desses poemas
que nem sei bem se deveria ser escrito,
pela fragilidade do tema
e por tudo que não foi dito.
Mas é que outro dia
trombei com uma alegria
que me tomou nos braços
e que, com certa malandragem,
me ofereceu pequenas doses,
fortes, raras e cortantes,
da sua própria magia
de amar sem ser amante
e partir quando bem queria,
sem nem avisar pra onde,
nem dizer se volta um dia.
E eu, que já não lembro como a esqueço,
passo as manhãs sonhando acordado
com as tardes que viravam vagarosamente noites,
na falta de pressa de beijos sufocados
pela vontade de suprimir o tempo.
Outro tempo.
sexta-feira, fevereiro 08, 2019
Amor impróprio
Com quantos vilães se faz tua felicidade?
Com quantos apontamentos se faz tua autoestima?
Com quanta hermeticidade se faz tua paz?
Com quantos palpites se faz tua sabedoria?
Com quanta negação se faz tua autoafirmação?
Com quanto ódio se faz teu amor próprio?
Com quantos inimigos se faz tua vitória?
Com quanto lamento se faz tua gratidão?
Com quanto apego se faz tua liberdade?
Por que amar só pela metade?
segunda-feira, outubro 08, 2018
Não comigo
Sou um marginal
do tempo, do espaço e de mim mesmo.
Não consigo ser o que espero.
Falhei com meu grande amor,
Deus me deu outro
e falhei de novo e de novo.
Não consigo ser o que sonho.
Já se passou tanto tempo
e eu sigo vagando.
Mas você vai me dizer o contrário
e vai me encher de esperança,
mas não é comigo que vai ficar.
domingo, agosto 05, 2018
quarta-feira, julho 25, 2018
Desvantagem
Estou cansado de correr em desvantagem,
de ser nota de passagem.
Cansado de superar pra existir,
de ser mais um a se extinguir.
Que preço alto que pagamos!
Ainda que seja mais baixo que o de outros.
Pobres deles!
Sequer podem reclamar como eu reclamo.
Me inflamo!
Não há como ser resistente
sob a crítica desdenhosa de quem manda,
sob o olhar convertido de quem se vendeu.
Por isso, não há quem esbanje mais fé,
porque é só o que nos resta:
Agradecer pelo que não nos falta
enquanto vai-nos faltando quase tudo.
domingo, julho 22, 2018
Fábrica de monstros
Já percebeu que a nossa sociedade valoriza em seus diversos discursos o equilíbrio, mas não valoriza pessoas equilibradas?
Vejamos, se alguém tem um corpo incrível, é exemplo de saúde e beleza física, logo é admirada por todos e conquista diversos seguidores nas redes sociais, por exemplo. Acontece que, para essa pessoa alcançar esse posto, precisou ser extremamente dedicada, praticamente obcecada pelo que faz e fazer diversos sacrifícios. Para se destacar em algo, precisou abrir mão de muitas outras coisas. Ou seja, não existiu equilíbrio entre todas as atividades de sua vida.
O mesmo acontece com grandes músicos, por exemplo. Mergulham fundo no mundo dos estudos, muitos desde muito cedo, abrindo mão até de grande parte da sua infância. Muitas vezes são falhos nas suas relações sociais e não têm sucesso em suas vidas pessoais, mas são ovacionados por suas obras.
E a lista não para por aí. Grandes pensadores, cientistas, ativistas revolucionários, atletas, não ficam para trás. Mas gostamos disso, apesar do discurso contrário. Somos cruéis em nossas idolatrias. Veneramos uma certa monstruosidade. Metade incrível, metade desprezível. O equilíbrio é ordinário, passa despercebido.
Mas e você, entre extraordinário ou livre, o que prefere ser?
Distraídos
Há dias que uma questão me intriga. Pena que as respostas não são tão concretas quanto as perguntas.
Já notaram que usamos no nosso dia a dia as tecnologias, as redes sociais, as redes de entretenimento, e tudo mais que a contemporaneidade oferece para nos distrair? Mas isso tudo nos distrai de quê? O que estamos evitando enquanto nos distraímos? O que está por baixo desses momentos de distração que são majoritariamente efêmeros e superficiais?
A resposta não é tão difícil: nossas vidas! Estamos ignorando a nossa própria existência, a nossa realidade, as nossas questões, as nossas lacunas, os nossos descontentamentos, nossas dificuldades. Estamos evitando nosso próprio confronto e, por consequência, nossa própria evolução.
O que te amedronta na tua realidade então? Quais são os monstros que estás todo dia adiando enfrentar?
quarta-feira, julho 04, 2018
O medo
Queria te olhar, mas não olho. Não aceitaria o teu desprezo.
Teu olhar quase se rende, mas se corrige, segue reto. Nos decepcionamos.
Contra o nosso próprio desejo, mútua e sincronicamente, nos golpeamos.
Por medo, encarceramos nossas vontades e libertamos nossa indignação sobre a nossa falta de vocação para o amor.
Deus tenha piedade de nós que, por muito querer acertar, erramos. E, por muito tentar antever, empacamos antes mesmo de nos permitirmos viver, no presente, o outro.
Estranho
Ainda me sinto estranho sem ti. Metade de alguém que não existe mais e outra metade ainda em construção. Um meio do caminho, nem longe que se compreenda ao todo, nem perto que se veja com clareza. Um ponto cego.
Tenho uma invisibilidade que me tira alguns privilégios, mas que me permite avaliar o mundo como um coringa. Não estou dentro de nada e, por não fazer parte, vejo todos. Vejo tudo e vejo com certo ceticismo.
Confio nas faculdades do tempo e ainda mais na sabedoria das nossas intuições. Não temo o que estamos vivendo, mas temi que não o vivêssemos, porque temo perder os trens do meu caminho. Não porque sou um viajante à deriva, mas porque creio que meu destino é longe.
terça-feira, maio 29, 2018
Anjo
Você acredita em anjos?
O meu se vestiu de gente.
E foi tão impecável,
que esqueceu o que era.
E era ela.
Infalível, amável,
luz pura e reluzente.
Carinho e mansidão.
Paciência e servidão.
Plenitude.
Se vivi pra te conhecer,
então já me posso ir.
Sou grato pelo teu amor,
flor que cobriu meu chão.
Elixir.
Se um dia voltares pro céu,
me deixa voar contigo.
Ser teu companheiro
pra eternidade.
Meu anjo encarnado,
te amo em verdade.
sexta-feira, maio 25, 2018
segunda-feira, maio 21, 2018
quinta-feira, janeiro 04, 2018
Para
Sente. Para.
Pensa. Fala.
Para. Sente.
Fala. Pensa.
Fala. Sente.
Sente. Fala.
Sente. Sente.
Sente. Para.
sábado, dezembro 02, 2017
Franksteins
de nossos pecados,
carências, desejos, amores
interminados.
Paixões sufocadas,
medos insuperados,
traumas transformados, valores
modificados.
Somos Franksteins
da nossa existência,
moldados na dor, estradas
inacabadas.
Sem muita beleza.
Tristeza e pavor,
fugaz alegria, riqueza
profetizada.
Sem última estrofe,
sem conclusão,
sem último verso e rima.
quinta-feira, novembro 02, 2017
Entenda
e nem tudo que quero entendo.
Entendo que quero não entender
o que já não entendo querer.
Entender a ponto de querer
então é o nosso ponto.
Mas em que ponto não entendemos
que querer é um ponto?
Sem mais quereres e entenderes.
Sem mais pontos.
Quantos pontos! Entendes?
Sei, não queres, mas entenda:
Querer é um ponto,
entender são reticências.
domingo, agosto 13, 2017
sábado, março 18, 2017
Mais um
Se não for nada mais do que uma peça
entre tantas que compõem esse lugar.
Sem nada mais do que sua vida pra guardar.
Sem grandes funções ou importância.
Aleatoriedade,
insignificância.
Ora, o que te importa a vida de uma formiga?!
Por que a alguém maior importaria a tua vida?
O que somos senão o que inventamos de nós mesmos?
Não seja ridículo! Todos morremos.
Nada nos anistia. Todos sofremos.
Todos temos medo.
Porque não temos garantia.
Talvez você não seja especial.
Talvez você seja esquecido
se não batalhar muito pra ser lembrado.
Talvez ninguém esteja realmente interessado
no que você pensa.
Sua crença
achar que é alguém pro mundo.
Talvez você só seja pro outro
aquilo que pra você passou despercebido.
Propaganda pulada, livro não lido.
Por que precisamos ser especiais
se a grande maioria do mundo pra gente não é?
Por que precisamos de destaque?
A gente não é o que quer.
Mas acredite no que lhe convir,
afinal não falo sobre o que entendo.
Pelo contrário.
Em mim não vai encontrar resposta.
Minha proposta?
Seja lá o que for,
continue sendo.
terça-feira, março 14, 2017
E agora?
e mudei.
E agora
eu não ando bem.
Feliz nem assim,
nem assado.
- Ô, moço! Me diz pra que lado,
se o senhor não se importa,
que é o caminho de volta.
sábado, março 11, 2017
Primeiro passo
não escreveria esse poema.
Mas tenho muitos sentimentos
e eles fogem pelos meus dedos,
soam nos meus ouvidos,
me acordam como marteladas,
são vidros
quebrando em direções erradas,
estilhaçando os meus versos,
desencadeando os meus sentidos.
Mas sei que ele também te serve.
Se ainda lês é porque soa
a tua dor conforme a minha,
elas se unem em uma linha
e se defasam quando nos reconhecemos.
Somos humanos.
Não entendemos
as principais razões da nossa existência,
somos ausência,
um retrato do que não temos.
Agora não percas tempo!
Eu já escrevi,
você já leu.
Ainda estamos vivos,
dê o segundo passo.
Eu solto a caneta,
você fecha o livro.
quarta-feira, março 08, 2017
quarta-feira, março 01, 2017
Até breve
Vai e me leva metade contigo.
Me deixa a dureza da realidade,
vazia e incolor,
pura vaidade,
tristeza que só acaba no amor,
na sutileza da tua simplicidade,
verdade,
o que não se explica
e que tudo engrandece.
O que são as coisas?
O que somos nós, senão nossa própria chacota?
O ademais esvaece,
não importa,
não faz sentido,
é caro e descartável,
nocivo.
Só não o é nossa amizade,
que tudo faz ser pleno
e faz ser vivo.
Por isso, ao tempo, meu pedido:
Que seja outro amigo
e nos passe quieto e brando,
que logo nos vemos de novo.
Estou indo, estás voltando.
segunda-feira, fevereiro 06, 2017
Sou oco
quarta-feira, janeiro 04, 2017
Não me leve a mal
mas você é tudo pra mim.
Demorei muito pra achar
alguém que fosse assim,
simples como esse poema
e que eu tivesse a certeza
de que não ia ter fim.
Não me leve a mal,
morena,
mas você é tudo pra mim.
sábado, dezembro 17, 2016
Carente
Mas também, você nem lê meus poemas!
Se lê, não interpreta
a minha dor incalculada.
Você não assimila,
não percebe
essa tristeza derramada.
Talvez até entenda,
mas não sente como eu sinto.
Tá bom, talvez se sinta
exatamente como eu.
Mas é que...
...
...
...
..
.
(você me abraçou.)
quinta-feira, dezembro 15, 2016
Desista
segunda-feira, outubro 31, 2016
Frase 17
domingo, setembro 04, 2016
Me leve
de ser teu parceiro
nessa caminhada
em que nada é certeiro.
Em que tanto se vai
e pouco nos vem,
entre muitas recusas
e raros améns.
Tua alma me rega,
é tão cheia e pura.
Contigo eu sou leve.
Me leve, doçura!
Que eu só sei te amar
e te bendizer.
Meu rio de ternura,
meu sol de amanhecer.
domingo, agosto 21, 2016
Poema do esquecimento
O tempo está cuidando
de preencher o meu espaço.
Ninguém lembrou de mim.
Uma vida entre tantas.
Uma fusa no compasso.
Ninguém lembrou de mim.
Não há quem, por amor, me siga.
Sou eu quem, só, o faço.
Ninguém lembrou de mim.
Nem mesmo lerão esses versos,
a prova escrita do meu fracasso.
segunda-feira, agosto 15, 2016
Oração
não esqueça como é se sentir vazio.
E, quando tiver sucesso,
não esqueça que já fracassei tantas vezes.
Que, quando eu esbanjar comida em minha mesa,
não esqueça que já tive fome e sede.
E, quando eu gargalhar entre meus amigos,
não esqueça que já chorei de solidão.
Que, quando eu me sentir amado,
não esqueça como foi ser rejeitado.
E, quando tiver conforto,
não esqueça como foi desconfortável consegui-lo.
Que, quando eu for aplaudido,
não esqueça como foi ser humilhado.
E, quando todos me ouvirem,
não esqueça que tantas vezes não tive voz.
Que, quando eu for pai,
não esqueça como foi ser filho.
E, quando estiver acostumado com meu grande amor,
não esqueça como foi viver sem ele.
Que eu nunca esqueça,
ainda que eu um dia tenha tudo,
como é não ter nada.
quinta-feira, agosto 04, 2016
Ser humano
quarta-feira, junho 01, 2016
quinta-feira, março 10, 2016
sexta-feira, fevereiro 05, 2016
Besta
o que é que tu tem?
É a tua face, teus olhos,
teu beiço?
É o teu descompasso,
tua falta de eixo?
Será tua boca,
que mal cabe o riso?
Ou tua risada,
que já é meu vício?
De certo é tua pele,
tua cor de paraíso.
Ou tuas olheiras,
nos dias corridos.
Serão os teus beijos
por entre teus cachos?
Teu cheiro, essa ponte
pro céu que eu viajo?!
Ou tua mordida
No vão da minha fronte?
De tudo, não sei.
Só sei que te miro
e perco meu meio.
Sou lado, do avesso
virado, tropeço.
O que te pareça.
Menino.
Sou besta.
quarta-feira, novembro 18, 2015
Vírus
que repele o que quer e destrói o que tem.
Uma incógnita sem previsão de descoberta,
uma linha torta em busca da reta.
Uma fonte afogada em si mesma.
Me tornei uma confusão.
Queda livre de céu a chão.
Uma cratera que parece monte.
Uma história sem alguém que conte.
A certeza do não.
Me tornei a subtração do que eu não quis ser
com a falta do que eu pretendi.
Sou uma equação errada.
Tenho tudo e não me sobra nada.
Sou filho da ilusão.
Me resta escrever a mim mesmo.
Me salvem, os nadas e as rimas!
Pobres como eu,
se encontrem também em mim,
a nos separarmos do que sonhamos.
segunda-feira, novembro 16, 2015
domingo, novembro 15, 2015
Anônimo
mas você nem sabe.
Você não pode saber.
É um arriar de pernas
que eu escrevo pra me livrar.
É o meu desejo deixando de transbordar.
É um pouco do tanto que eu tenho pra dar.
Sou eu embebido a te desaguar.
segunda-feira, outubro 19, 2015
sexta-feira, outubro 16, 2015
Falta
Sem mais simbologias
ou versos e rimas.
Me faltas como a poesia a esse poema.
quinta-feira, outubro 15, 2015
Vontade
E que eu não queira quem muito me quer.
Que mesmo quem me quer alguém não queira.
E que tanto alguém não queira quem tiver.
O fato que não entendo
é o querer que te virá adiante,
por conta do meu não querer.
O mesmo que outrora eu não tive.
E que me fez te perder.
E me fez dobrar tua vontade.
Essa vontade perdida,
que entre todos nós vaga tardia.
Que mania feia da vida
de dar-se a quem lhe repudia!
quarta-feira, agosto 26, 2015
Sigo só
domingo, julho 19, 2015
Sós
Atrás das portas,
por trás das telas.
Embaixo dos chuveiros
e dos travesseiros.
Nos balcões, nos caixas,
nas filas, nos pontos.
Nos olhos garimpantes
de corpos errantes.
No mundo, na gente,
nos bichos, na vida.
É mais solidão
do que acolhida.
'Que Deus fez de nós?!
Criou nosso pranto,
mostrou todo o encanto
e nos largou sós.
sábado, julho 18, 2015
Teu beijo
tentativas, erros.
Lições repetidas,
cruéis recomeços.
A vida é complexa
nas linhas que teço.
"Que nada!", minha boca
me diz no teu beijo.
quarta-feira, julho 08, 2015
Máquina
Eu sirvo, dia a dia,
a vida que me rege.
Eu sou máquina.
Carrego peso em chumbo,
que não se assenta nem segue.
Eu sou máquina.
Estrago-me aos poucos,
vai-me faltando fluido.
Eu sou máquina.
De repente, eu empaco.
Na pane, eu respiro.
Mas sou máquina.
Me pingam duas lágrimas
e eu sigo indo,
sigo indo...
segunda-feira, julho 06, 2015
Dias
Como se eu tivesse chegado atrasado.
Como se num passo errado
tivesse perdido a linha do encontro.
Como se de andar apressado
rodasse num mesmo ponto,
a procurar coisa que não se acha,
por se procurar demais.
Tem dias que sinto a vida a me olhar pela janela,
como quem se demora,
pelo lado de fora, pra decidir quando entra.
Porque não sabe quem mora
e, pelo silêncio que brado,
que é de quem grita por dentro
num berro desesperado,
ela hesitante se ausenta.
E eu, esquecido, recolho
minha inquietude cansada.
Eu deixo que a luz se apague.
Que a lua desapaixonada
de mim, pelo céu vasto, vague.
Que há dias que não são meus.
Não importa minha queixa, minha luta.
São dias que sabe lá Deus
as pontes que são construídas
às custas das minhas feridas.
quinta-feira, julho 02, 2015
terça-feira, junho 30, 2015
Ainda
quando meus planos derem errado
e meu caminho for torto?
Quando o que eu prego agora esqueça
e o que eu prometo não cumpra,
ainda vais?
Quando o que sou for mais alguém,
algo que ainda nem sei,
ainda vais me amar?
Quando mesmo tu fores outra,
que nem mesmo saiba o que ama,
vais ainda me amar?
Quando o tempo cansar nossos ombros
e meus ombros pesarem em teu seio,
teu seio lhes vai suportar?
E se logo depois me rebelo,
como quem não suporta o singelo,
vais ainda me acobertar?
E se amares o que me tornei
quando eu já não quiser ser o mesmo,
vais saber desamar?
E quando eu te ferir com minha face,
de todas a mais obscura,
pra provar minha fidelidade,
te entregando minha morte e minha cura,
seja essa a pior loucura,
vais ainda suportar amar?
segunda-feira, junho 29, 2015
Quero menos
quero a tua vida vivida.
Eu quero menos que teu tempo que sobra,
quero que te sobre tempo.
Eu quero menos que tua perfeição embutida,
te quero desmontado, humano.
Eu quero menos que o que vais me deixar,
quero que não me deixes.
Eu quero menos que o que não seja tu,
te quero livre como me ensinaste a ser.
Eu quero muito menos que dinheiro,
te quero pobre a me sorrir.
Eu quero nada, quase nada
senão coragem.
segunda-feira, junho 22, 2015
Loucos
Eu e tu estamos loucos!
O que fizemos hoje?!
Juntamos proibidamente nossos sonhos.
Deitamos lado a lado sob a censura da razão.
Flertamos a morte com o sorriso mais descarado.
Enfeitamos um desastre com suspiros de paixão.
Encaixamos perfeitamente nossos abraços quebrados.
Quebramos nosso acordo de sofrer em vão.
Condenamos o futuro ao desemprego.
Viramos páginas coladas pelo medo.
Flutuamos sobre nós, sonhamos.
Nos matamos de amar.
Sucumbimos de bem errar.
Morremos de viver.
Enlouquecemos!
(Mas loucura há de se ter,
pra não morrer do que triste mata.
E desventura se viver,
pra não sofrer do que lindo acaba.
Então não cesse, vida minha,
de atribular o meu passeio.
Que de lacuna se faz caminho.
Mas de excesso, só rodeio.)
quarta-feira, junho 17, 2015
Te vi
tuas pernas,
domingo, maio 03, 2015
Já fui
quarta-feira, abril 29, 2015
Estranhos
Já não me lembro mais do teu sorriso.
Não me restou mais nada além de um grande abismo.
Eu nem consigo imaginar que éramos dois.
Parece tão estranho, eu tenho medo
de te encontrar de novo e não sentir mais nada.
De ter te esquecido, minha namorada.
O amor da minha vida adormeceu.
O tempo é um vilão, constrói moinhos
que varrem sentimentos e separam estradas.
E a vida vai passando de mansinho,
mas certas coisas seguem sempre inabaladas.
(O que o teu amor fez nenhum clarão apaga.
Ficou fotografado na tua própria cicatriz.)
E é tudo tão estranho, eu tenho medo
de te encontrar do nada e sentir tudo de novo.
De não ter te esquecido, minha namorada.
Amor da minha vida, quem sou eu?
quinta-feira, abril 09, 2015
Perecer
Quantos dias eternos terão de findar?
Quando o tempo parado começa a passar?
Quem nesse imenso deserto irá me salvar?
Quantos beijos errados teremos de dar?
Quais abraços gelados irão esquentar?
Quais dessas peças tortas irão encaixar?
Quando a tua boca seca enfim vai molhar?
Quem no teu mundo morto irá te beijar?
quarta-feira, abril 08, 2015
O Artista
Uma paixão, por exemplo, traz à tona as melhores palavras, rimas, formas, melodias. É a realização por vontade mútua de um ideal que não existe, mas que convém ser mentido sincronicamente pela dupla enamorada. É um acordo de se convencerem incansavelmente - enquanto é possível - da perfeição esperada por ambos, que desmente a realidade, que descredita os traumas passados, que mitifica o que foi, como aprendizado e amadurecimento, desmitificado. Apaixonar-se é desaprender, emburrar, involuir, desamadurecer. É exagero.
Exagero assim como a dor que o poeta descreve nos seus lamentos amorosos, nas suas divagações sobre solidão, sobre a saudade, sobre o encanto da rotina de um amor de outrora, que só pode ser visto agora porque não é mais real, é inalcançável, inatingível, irrecuperável, impossível e, logo, louvável. São os dois limites, são duas situações de excesso de energia positiva e negativa. São deformações da natureza, são sobras que reagem entre si e criam saliências, explodem, estouram, espalham-se, alastram-se, contaminam, saturam-se, até se estabilizarem.
Então chegamos onde queríamos, no tempo pelo qual festejamos e agradecemos antecipadamente, porque ainda não era, iria ser; e se iria ser, é claro que seria perfeito. Tempo que não exige nem inspira mais nada, porque é onde devemos estar, é onde "estar" deixa de ser um problema e passa a ser uma constante, uma certeza, uma realidade. E a realidade é chata, é dura e eterna. É preciso solucionar os outros problemas, é preciso festejar outras conquistas, é preciso arrumar o que está estragado, é preciso ensinar algo a alguém, é preciso buscar outro desequilíbrio que nos incomode e que nos dê novamente motivo pra festejar ou reclamar. Porque nós não nascemos pra viver. Nascemos pra criar vidas e depois abandoná-las, até que se pareçam novamente com as que sonhamos. Até que a inspiração volte. Até que haja arte de novo.
sábado, abril 04, 2015
Cala
e os medos não sucumbem ao tempo,
as rugas não crescem nem somem
e o sangue inflamado do homem
o trai intátil e velho,
cala.
Quando a tentativa é erro
e o recomeço é martírio,
o pensamento é tudo
e tudo é o que não cabe,
porque cada palavra mata,
cala.
Quando o segredo cria a doença
e a verdade só dói,
o descaso ronda o amor,
já tão descrente de si próprio,
e lhe algema as duas mãos,
cala.
Cala, porque já é madrugada.
Cala, por absolvição.
Cala e escuta o lamento do silêncio.
Cala como forma de oração.
quinta-feira, abril 02, 2015
Em conserto
descalibrado,
saindo do trilho,
fora de órbita,
descompassado.
Na contramão,
virado do avesso,
de ponta-cabeça.
Eu to todo errado.
Preciso de ti,
que é a minha régua,
meu osciloscópio,
minha bomba d'água,
desfibrilador,
martelo e sarrafo,
beijo e abraço.
Único remédio
pra dor que eu sinto
de ser só na vida.
Tua peça perdida.
segunda-feira, dezembro 01, 2014
domingo, julho 13, 2014
quinta-feira, abril 24, 2014
Meu verso, teu choro
na imensidão do teu suspiro.
Teu silêncio me devora.
Procuro teus caminhos
nas palavras que não dizes.
Tua inércia me apavora.
Já não te sigo, eu não basto.
Todo o teu corpo está coberto
e a tua alma está fechada.
Eu te pergunto e tu és nada.
Me jogo vão na tua escada,
mas o meu tombo não te alarma.
E entre nós não há acordo.
Estamos presos um no outro,
no meu verso, no teu choro.
quarta-feira, agosto 01, 2012
segunda-feira, abril 02, 2012
Frase 8
sexta-feira, março 09, 2012
É festa
eu ouço foguetes!
Aposto que anjos malucos dançam à minha volta,
rebolam, se empurram, derrubam banquetes.
É como se um pequeno lugar dentro de mim,
que antes nem se mexia,
virasse estopim
e explodisse alegria.
É um lobo que voa,
são dois sóis no mundo,
uma outra pessoa,
um gozo sem fundo.
quarta-feira, março 07, 2012
E só
que me ouçam por telepatia,
e que me entendam como eu não o faço,
porque tudo pode ser motivo, mas nada é.
Preciso que os anjos me ajudem
e tragam seus amigos,
que me levitem,
que me ressuscitem
e me façam cócegas
pra eu morrer de rir,
mas rir tanto que seja como um sofrer no paraíso.
Que eu fique exausto,
numa paz que nem a de um cochilo debaixo da árvore,
ao som dos pássaros e do vento.
Preciso de Deus mais do que nunca,
que Ele me use,
mais do que me apodere,
que acredite em mim,
mais do que eu Nele,
e só.
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
Espero
eu espero.
Enquanto ela dorme,
eu espero.
Enquanto ela decide,
eu espero.
Enquanto ela reclama,
eu espero.
Enquanto ela esbraveja,
eu espero.
Enquanto ela nao volta,
eu espero.
Mas ela volta.
Eu espero.
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Sorte
e que o sol esteja aquecendo ou brilhando menos.
Não é que o violão tenha soado menos suave
e que toda voz que eu ouça me pareça ardida.
Não é que o futebol e a comida tenham perdido a graça
assim como as novelas, as bundas e tudo que passa.
Não é que todo convite tenha ficado menos interessante
e que todo o açúcar que eu coma pareça adoçante.
É que no meio de tudo foi que eu te encontrei
e vi em ti cores que são não veria,
com um brilho e calor que o sol não podia.
Ouvi no teu beijo umas mil melodias,
driblei minhas tristezas, provei tua alegria.
E além do mais, é tudo tão leve!
O nosso roteiro a gente é que escreve.
A nossa censura. Se é longo ou se é breve.
(E rimas à parte, a tua é melhor...)
Nós nos dirigimos,
só que um ao outro,
é mais que um encontro,
um raro convite
da felicidade.
E tudo que passa não vai ser mais doce,
nem tão mais bonito.
É questão de sorte,
eu não te escolhi,
eu fui escolhido.
domingo, janeiro 29, 2012
Esquece!
E pudera. És ferida que não sara,
que dói quando bem quer.
És calor, depois flagelo,
és evo que sempre acaba.
Mas e se nesse teu peito
afogado de toda m'água
tiver mesmo verdade,
ainda que só conheça mentira.
E que tudo fora motivo,
mas que o amor estivera sempre,
de fato, inabalável.
E se é belo e justificável
teu pranto repetido,
teus argumentos,
tuas rugas
e tua desonesta desistência,
ainda assim:
Esquece, ela não te ama mais!
sexta-feira, janeiro 27, 2012
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Respingo 3
Daí perdi o foco e não consegui mais pensar daquele jeito.
terça-feira, janeiro 03, 2012
Mais menos
ser menos maluco, mais são,
ser mais constância, menos decepção,
menos poeta, mais leitor,
menos paixão, mais amor.
É hora de parar de procurar,
ser menos trajeto, mais chegada,
ser menos saída, mais entrada,
menos isso, mais aquilo,
mais menos, menos mais.
É hora de ser mais adulto,
ser menos sincero, mais justo,
ser mais cauteloso, menos avulso,
menos pulso, mais percepção,
menos dívida, mais satisfação.
sábado, dezembro 31, 2011
Careta
Meu ritmo é outro,
o dos apaixonados.
É acelerado,
sem medo, sem freio,
sem teu desapego.
Eu sei, sou careta.
Te quero nos dias,
p'ra além das noites.
Te escrevo e te canto,
te leio e me encanto,
te busco e te erro.
Mas me foste honesta.
Birrento, eu que insisto.
É que eu não resisto.
Eu não sei guardar
meu tolo desejo
de te namorar.
segunda-feira, dezembro 26, 2011
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Não sei bem
que eu ando meio alto,
errando os caminhos,
olhando pr'onde os carros não vêm.
Não sei bem o que tem,
que ando cantarolando.
Cada esquina é uma música.
E cada nota me faz um bem!
Não sei bem o que tem,
que o pensamento voa,
quando teus carinhos chegam.
Só acordo na tua boca.
Não sei bem o que tem
que sossego só contigo,
mas suponho preocupado:
Devo estar apaixonado.
quinta-feira, dezembro 15, 2011
domingo, novembro 27, 2011
Mad at you
I am mad at you
because you are so fucking special
and nothing else will take your place,
because you were so hard to find
and I have found you,
because your lips, they are mine,
you have said that.
Because we walked so fine
before you dropped with those questions,
and broke my heart with your lessons,
and then chose anything but me,
and thought of guarantee,
and left me with the stars
so many lonely nights.
I am mad at you
because you're all I've ever wanted
and nothing else will take your place.
sábado, novembro 26, 2011
Mulher
me tem quando quer,
me embebe de afeto,
me olha nos olhos,
desmonta minha pose
e te alimenta.
Depois já me erra,
me assiste desnudo,
te desinteresso,
eu sou teu demais.
Ah, teu engano!
Mulher,
se não me tem, quer.
E eu sou teu de novo
e de novo, mulher.
sexta-feira, novembro 18, 2011
quarta-feira, novembro 09, 2011
Mal-avisada
que estás a procura.
Tenho uma solidão
que nenhum beijo cura.
eu sou o mau caminho.
Te envolvo e te sufoco
feito colarinho.
Confundo o teu destino,
enquanto apalpo o meu.
Reviro os teus valores,
digo que os perdeu.
Te enlaço como cobra,
mas não dou o bote.
Não vou te alegrar
na vida, nem na morte.
Não esperes de mim
que eu não fraqueje, amada.
E que elas sejam poucas,
minhas trapalhadas,
meus tombos, minhas dores,
minhas despedidas.
Me encha de carinho
e não cesse, querida.
Porque eu sou mal-amado,
faço melodrama.
E levo os meus problemas
todos para a cama.
Então, não diga que
não foi mal-avisada.
E prezo que ainda queiras
Que em todo o meu banditismo
exista algo que conte
p'ra se valer a pena
o teu pesado fim.
quarta-feira, outubro 26, 2011
These days
Tenho sorrido de orgulho.
Bobo, egóico,
tenho andado por aí,
abraçado por olhares,
e inflado o meu peito
até chegar na minha casa,
no meu canto,
meu espelho,
minhas roupas reviradas,
meus talheres e afazeres,
meu relógio atrasado,
minha vida revelada,
e um "não" pra quase tudo.
quinta-feira, julho 28, 2011
Daqui para frente
Ora quis, ora não quis,
ora quis que não quisesse, ora quis querer de novo.
Mas assim, tão certo, nunca.
Não, nem perto, como agora,
de que tenho duas certezas
e de que não posso tê-las,
não estive e bem sei:
ter as duas é não ter,
ter que ter pra não ter nada.
Não te ter daqui p'ra frente,
minha musa, minha amada.
Como nunca, como sempre.
terça-feira, abril 05, 2011
Tu e eu
muito,
somos dois,
somos o mesmo,
somo todos,
todos feios e belos,
idiotas e gênios,
fortes e fracos,
corajosos e covardes,
talentosos e inúteis,
felizes e aborrecidos,
leitores e poetas.
Fazemos bondades e maldades,
castelos e buracos,
alarde e silêncio,
progressos e regressos,
amor e canalhisse.
E todos temos duas faces:
a de mentira e a de verdade.
sábado, janeiro 08, 2011
Segredo
que te cobres morena
por trás deste véu de doçura?
Quem és tu,
que ora és minha sina
e ora minha pior tortura?
Ao te descobrires,
não faça firula.
Me acerta sem dó
ou louca me beija.
Que eu hei de te amar
como nunca o fiz,
coração rasgado
ou doido dobrado.
domingo, agosto 01, 2010
O homem sem pragmática
hsp: - Não. Minha esposa faleceu há duas semanas.
outro: - Nossa, me desculpa.. não sabia. Eu lamento muito... mas com certeza ela tá num lugar melhor...
hsp: - Com certeza não, meu caro. O caixão que eu comprei tem estofamento, mas não se compara à nossa cama kingsize.
outro: - Eu quis dizer que... bem... eu fico nesse andar...
- O senhor me acompanha?
hsp: - É claro.
outro: - Não sabia que trabalhava nesse andar... nunca vi o senhor por aqui.
hsp: - Eu não trabalho aqui, trabalho no 7º andar.
outro: - Ah, bom! Mas então deve tá atrás de alguém por aqui.
hsp: - Não, na verdade estou na sua frente.
outro: - Eu quis dizer que...
outra: - Sr. Otávio! Soube da sua esposa... lamento muito.
- Deve ter sido difícil voltar ao trabalho...
hsp: - Não. Eu vim de carro. Aliás, o trânsito nunca esteve tão tranquilo.
- Só estou um pouco atrasado porque o Seu Gerson me pediu que o acompanhasse.
outro: - Seu Gerson? Eu?
- Mas eu só perguntei se...
outra: - Gerson! Não vê o estado do homem?! Ainda toma o tempo dele...
- O senhor não devia dar ouvidos a ele, Sr. Otávio. Às vezes, o Gerson não enxerga as coisas.
hsp: - Então certamente não devo dar ouvidos a ele, mas sim um bom óculos de grau.
- Já consultou um oftalmologista, Seu Gerson?
outro: - Não, Sr. Otávio... Ela quis dizer que eu não tenho... sensibilidade.
hsp: - Ah, mas então o problema é muito mais sério, Seu Gerson.
- Se não sente nada, deve estar com uma doença muito grave.
outro: - Epa! Vira essa boca pra lá!
hsp: - Virar a boca? Por quê?
outro: - Não... Eu quis dizer: Não fala assim! Dá azar!
hsp: - Mas então deve ser por isso que minha esposa faleceu. Nunca virei a boca para falar com ela.
- Por que não me falaram isso antes?!
outro: - Não, Sr. Otávio... isso não teve nada a ver com a sua boca, não podia fazer nada.
- O destino quis assim. Nem tudo tá ao nosso alcance.
hsp: - Mas para isso existem as escadas, meu caro.
- Você não as conhece?
outro: - Sim, Sr. Otávio.
- Agora, se o senhor me der uma licença, eu vou trabalhar.
hsp: - Eu não posso.
outro: - Como assim, não pode?
hsp: - A licença para trabalhar quem dá é a Dona Elma, do RH, lá no 2º andar.
- Mas deveria tê-la pego quando foi contratado, Seu Gerson.
outro: - Ta bom, Sr. Otávio. Eu vou lá pegar.
hsp: - Mas, Seu Gerson! O elevador fica do outro lado! Seu Gerson! Seu Gerson...
- É... Pelo jeito, ele não me entendeu.
terça-feira, junho 29, 2010
Sou homem
Sábias palavras.
A última vez que estive contente...
Droga! Já tive mais memória.
O que posso lembrar agora
é que procuro por algo que já tive
e que porventura não quis mais.
E tive razão.
E tive um monte de coisas.
Hoje me falta o que sei, por ter tido,
que não vai ser bastante,
porque há de faltar o que eu tenho agora.
Ah, não! Eu descontente de novo!
Queria escrever sobre meu descontentamento,
mas já não me parece tão ruim,
já não sinto o mesmo incômodo
e nem o mesmo prazer em dizer.
Como gostaria de me sentir descontente outra vez...
mas não há de se ter tudo,
então me contento
e volto ao começo.
segunda-feira, maio 05, 2008
To be and not to be
O mundo de fora me grita qualquer coisa que não ouço,
o outro, simplesmente, é tudo que existe.
Há só o que eu penso e então não há nada,
pois tudo é imenso e profundamente confuso de tão óbvio.
Pobre de mim que tenho as mãos e os pés atados em mim e no meu pensamento covarde,
que assim é porque sou eu que escrevo.
Esse vão angustiante onde eu moro é lindo porque é triste e infinito
e é terrível porque é óbvio e difícil,
difícil porque sou eu que escrevo.
Prazer eterno é este de esperar, no escuro, pelo inusitado.
Porque eu quero que seja inusitado,
e é por isso que já não há prazer,
porque eu sou lógico, sábio da minha vida e malditamente consciente da minha consciência.
Então mergulho profundamente nesse caminho que não existe,
onde tudo é incerto, só porque fica entre o meu pensamento e a realidade,
entre o hoje e o amanhã, entre minha angústia e minha paz.
E não há muro algum entre a minha ruína e a minha vitória,
a não ser um eu, repleto de longitude e preguiça,
e tudo porque sou eu que escrevo.
Sou o incansável poeta que não diz nada,
porque sou eu que escrevo,
e o que escrevo a mim não falta, só me reduz a mim mesmo.
sexta-feira, novembro 03, 2006
Minha amada
que as mais macias flores
são, junto de ti, ásperas;
Quão fina e justa és tu, minha amada,
que a mais ampla ternura
é, perto de ti, ácida;
Quão leve e sã és tu, minha amada,
que o sujo mal-agouro
é, frente a ti, água;
Quão cego e tolo sou eu, minha amada;
escrevo-te poemas
que - belos -, diante de ti, são nada.
segunda-feira, outubro 02, 2006
É pouco
se a brecha que abro é o insano;
é pouco escrever-te com letras
se é com sentimentos que amo.
É pouco versar meu querer
se a quero com todas as artes;
é pouco afagar-te com beijos
se um todo é o que tenho p’ra dar-te.
É pouco e sempre irá ser,
se ao lado de ti envelhecer,
quando há um infinito p’ra estar.
É pouco e se vai meu saber.
Se lembrar de ti é esquecer,
do que já não lembro ’inda é pouco.
Buscar a poesia
no silêncio de cada ato,
na afronta de uma heresia,
na surpresa de um relato.
Buscar a poesia
- e por que não? - na instintiva maldade,
na iminente folia,
no calado choro da saudade.
Buscar a poesia
no pensamento censurado,
na sempre instável alegria,
no punho forte e cansado.
Buscar a poesia
para abolir o cinzento
e esparramar euforia.
Com folha, lápis, sentimento
e só, buscar a poesia.
segunda-feira, setembro 11, 2006
O bom senso do Criador
quinta-feira, setembro 07, 2006
O sábio
sabes tanto que se apaga
da memória tua essência
de ser sábio em excelência.
É penoso teu intento
de enxergar-te ao topo, isento;
tendo em todos tolerância,
nunca encanto ou relevância.
Admira-me o deslinde
de ser sábio ou pedante
que há em nossas referências.
Digo então que ignorante
faço-me das tuas culturas
e também das tuas carências.