quarta-feira, abril 08, 2015

O Artista

Só nos inspiramos, criamos, compomos, produzimos, nos expressamos artisticamente de maneira mais bela e verdadeira, quando estamos em desequilíbrios opostos, os dois extremos, exageradamente tocados pela tristeza ou pela felicidade, melancolia ou euforia, estresse ou tranquilidade, incômodo ou paz, revolta ou gratidão.

Uma paixão, por exemplo, traz à tona as melhores palavras, rimas, formas, melodias. É a realização por vontade mútua de um ideal que não existe, mas que convém ser mentido sincronicamente pela dupla enamorada. É um acordo de se convencerem incansavelmente - enquanto é possível - da perfeição esperada por ambos, que desmente a realidade, que descredita os traumas passados, que mitifica o que foi, como aprendizado e amadurecimento, desmitificado. Apaixonar-se é desaprender, emburrar, involuir, desamadurecer. É exagero.

Exagero assim como a dor que o poeta descreve nos seus lamentos amorosos, nas suas divagações sobre solidão, sobre a saudade, sobre o encanto da rotina de um amor de outrora, que só pode ser visto agora porque não é mais real, é inalcançável, inatingível, irrecuperável, impossível e, logo, louvável. São os dois limites, são duas situações de excesso de energia positiva e negativa. São deformações da natureza, são sobras que reagem entre si e criam saliências, explodem, estouram, espalham-se, alastram-se, contaminam, saturam-se, até se estabilizarem.

Então chegamos onde queríamos, no tempo pelo qual festejamos e agradecemos antecipadamente, porque ainda não era, iria ser; e se iria ser, é claro que seria perfeito. Tempo que não exige nem inspira mais nada, porque é onde devemos estar, é onde "estar" deixa de ser um problema e passa a ser uma constante, uma certeza, uma realidade. E a realidade é chata, é dura e eterna. É preciso solucionar os outros problemas, é preciso festejar outras conquistas, é preciso arrumar o que está estragado, é preciso ensinar algo a alguém, é preciso buscar outro desequilíbrio que nos incomode e que nos dê novamente motivo pra festejar ou reclamar. Porque nós não nascemos pra viver. Nascemos pra criar vidas e depois abandoná-las, até que se pareçam novamente com as que sonhamos. Até que a inspiração volte. Até que haja arte de novo.

Um comentário:

UM PONTO EM MARTE disse...

Há palavras que emudece por sua profundidade.
Sensacional.