Tem dias que sinto a vida a me escorrer pelas mãos.
Como se eu tivesse chegado atrasado.
Como se num passo errado
tivesse perdido a linha do encontro.
Como se de andar apressado
rodasse num mesmo ponto,
a procurar coisa que não se acha,
por se procurar demais.
Tem dias que sinto a vida a me olhar pela janela,
como quem se demora,
pelo lado de fora, pra decidir quando entra.
Porque não sabe quem mora
e, pelo silêncio que brado,
que é de quem grita por dentro
num berro desesperado,
ela hesitante se ausenta.
E eu, esquecido, recolho
minha inquietude cansada.
Eu deixo que a luz se apague.
Que a lua desapaixonada
de mim, pelo céu vasto, vague.
Que há dias que não são meus.
Não importa minha queixa, minha luta.
São dias que sabe lá Deus
as pontes que são construídas
às custas das minhas feridas.
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